E eu que pensava, sempre que ia à Livraria Cultura, que não comprava todo o estoque da loja por causa dos meus parcos recursos. Graças a Deus, o deputado estadual Luciano Siqueira (PCdoB-PE) escreveu um brilhante texto para me explicar que o problema está na minha ancestralidade.
Em Um hábito que faz falta à alma de nossa gente, Siqueira afirma que a baixa leitura em Pindorama “tem a ver com raízes culturais que sempre valorizaram a tradição oral, na linha direta de nossas matrizes indígenas e africanas“.
Está explicado.
Este blogueiro que vos escreve tem ascendência francesa por parte de pai. Mas não é aquele francês puro sangue do norte. Trata-se do sul da França, que tanta influência e mistura teve com os mouros do Marrocos, da Argélia e da Tunísia. Portanto, África.
Por parte de mãe, minha avó era índia (com direito a carteirinha da Funai e tudo) da tribo Fulni-ô ali de Águas Belas, em área de transição entre Agreste e Sertão de Pernambuco. Já meu avô materno era português legítimo e, acredito, devo agradecer a ele os poucos livros que li na vida.
Pois o deputado, comunista e dublê de antropólogo… Ou seria antropólogo, deputado e dublê de comunista? Ou seria dublê de deputado? Deixa pra lá…
Eu ia falando que Luciano Bolsonaro, ops, Siqueira dirimiu todas as dúvidas. Minha preguiça de ler deve ter a mesma origem da minha preguiça de trabalhar. Vou parar de me iludir. Nunca mais eu volto na Livraria Cultura.
PS ¹: Abaixo, o texto do mestrando em História Felipe Azevedo que analisa muito melhor do que eu faria a opinião de Siqueira.
PS ²: O blog pede desculpa aos que frequentam este ambiente por um dia ter indicado voto no ilustre político. Este e outros fatos nos obriga à autocrítica. Mil perdões a tod@s.
Na última semana o vereador de Recife Luciano Siqueira (PC do B) protagonizou mais um caso de miopia social na política brasileira. Ao escrever o texto “Um hábito que faz falta à alma de nossa gente”, o vereador lançou sua canoa argumentativa nas plácidas águas da ingenuidade e remou forte na pieguice.
Com base em recentes pesquisas, Siqueira constatou com uma terna dor no coração que a maior parte dos brasileiros não tem “uma relação de amor com o livro”, e disse que para formar novos leitores e aproximar seus concidadãos dos livros – estes instrumentos que são “uma janela para o mundo e para o sonho” -, existem duas vias possíveis. Uma é aumentando o tempo de permanencia das crianças nas escolas e a outra é “pela força do exemplo: se os pais e familiares adultos cultivam o hábito da leitura, influenciam crianças e adolescentes”.
Eu realmente não tenho nada contra idealismos, mas esse de Luciano Siqueira me incomoda, afinal de contas o cara é vereador, seu papel é justamente propor vias de acesso concretas para a educação e cultura das pessoas com políticas públicas incisivas. O fato de o público leitor no Brasil ser ainda pequeno, se deve em muito por falta de iniciativas governamentais vultuosas.
No texto, Luciano cita Colômbia e França como exemplos de países leitores. Pois bem, no país sul-americano foi feito um gigantesco investimento em bibliotecas públicas através da criação da “Red Nacional de Bibliotecas Públicas”, são bibliotecas colossais e modernas. Já na França, são conhecidas as famosas edições da Gallimard, aqueles livros de capa branca a preços extremamente populares. Ou seja, nesses países, que quiser ler um livro lê, tem acesso.
Já no Brasil não é tão fácil ler um livro, principalmente se você estiver alijado da linha de consumo da classe média. Não é todo mundo que, como o vereador do PCdoB, pode se gabar de ser um “feliz avô de Miguel que aos 5 anos adora freqüentar livrarias, onde faz suas escolhas”, aqui os livros são caros, muito caros. As livrarias do Recife praticam um verdadeiro cartel, a oscilação de seus preços é irrisória e o lucro é muito alto, livrarias como a Cultura e a Saraiva tem um percentual médio de 50% de lucro em cada livro. Diante disso não há nenhuma política pública, inexiste uma editora pública ou estatal que faça livros de qualidade e em larga escala.
A situação das poucas bibliotecas públicas de Recife são vexatórias, além de sucateadas, vivem de acervos ultrapassados e funcionam geralmente em horário comercial. Essa estrutura é pouco convidativa para quem quer travar uma “relação de amor” com os livros.
Diante deste cenário árido em políticas de leitura, Luciano Siqueira culpa, pela a falta de interesse dos brasileiros pela leitura, a descendência ancestral desse povo em suas “matrizes indígenas e africanas”. Muito cômodo.
Enquanto Siqueira aponta aponta para os Tapúias, Caétes, Bantos e Tupinambás, a prefeitura do Recife vem enfraquecendo o único programa de fomento à leitura que tem. O Programa Manuel Bandeira que incrementa o acervo das bibliotecas das Escolas Municipais e capacita mediadores de leitura, teve sua importância rebaixada, deixando de ser uma Gerência na Secretaria de Educação e passando a ser apenas um projeto que vem perdendo em articulação e passando por um corte de pessoal.
Autor: Marco Bahé
Disponível em: acertodecontas.org.br

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