
Quaresma é um tempo propício para nos prepararmos para a Páscoa do Senhor. Não tem fim em si mesma. O fim, o objetivo da Quaresma é a Páscoa. Não podemos ter iniciado o primeiro dia da Quaresma, dia 22 de fevereiro – quarta-feira de cinzas – dia de jejum e abstinência e irmos até a quinta-feira santa - 05 de abril - sem uma mudança profunda em nosso ser cristão. Temos quarenta dias para o nosso processo de conversão. Os profetas falam de rasgar os corações, ou seja, é necessária uma mudança profunda em nossa vida. É preciso dar um passo a mais ao encontro pessoal com Jesus Nosso Senhor, que derramou seu sangue para nos salvar; ou seja, precisamos transformar nosso homem velho cheio de pecados em homens novos revestidos da graça do Senhor, novas criaturas em Cristo.
e a proposta da Campanha da Fraternidade, que nos ensina a viver o lado social da quaresma, é “Que a saúde se difunda sobre a terra”, devemos, pessoalmente, além de nos preocuparmos com a saúde dos irmãos, saúde física, moral e espiritual, olhar também para a nossa saúde nestas três dimensões. O evangelho e a Quaresma nos propõem as obras de misericórdia que são a esmola, oração e o jejum.
A primeira obra de misericórdia é a esmola. Ela se relaciona com os irmãos empobrecidos. Como devemos dar esmola? Jesus nos adverte que devemos dar esmolas sem nos vangloriarmos. “Não saiba tua mão direita o que faz a esquerda” (Cf. Mt 6,3). Só o Pai deve saber o bem que fizemos e ele nos dará a recompensa. Podemos chamar a esmola de caridade no sentido amplo: respeito profundo ao irmão necessitado, presença de Deus em nós. Ao darmos esmola deveríamos pedir perdão ao pedinte por causa da nossa participação no pecado social que o faz permanecer na miséria e marginalização. Devemos ter o cuidado de ao dar esmola não humilharmos o nosso irmão. Muitas vezes nossa esmola é dada de tal modo que só beneficia a quem pede e não nos traz nenhum proveito espiritual por causa da nossa prepotência e falta de caridade. Caridade não é sinônimo de dar esmola. Caridade é a abundância do amor de Deus que está no nosso coração e nos leva a transbordar no amor e na misericórdia, sentindo a necessidade de comunhão mais intensa com nossos irmãos empobrecidos.
A segunda obra de misericórdia é a oração. Ela se relaciona diretamente com Deus. Como fazer a nossa oração? Primeiramente, é nos colocarmos em oração, pois há pessoas que vivem como se Deus não existisse. Depois, nossa oração deve buscar a qualidade e a intensidade. Nada de palavras inúteis e excessivas. Devemos transformar o nosso dia em oração e acentuar os momentos de oração pessoal, reservada, (você e Deus, sem que ninguém precise ficar sabendo). Através da oração estamos voltados para Deus, nosso Pai. Devemos rezar como filhos e filhas, numa conversa pessoal. Esta oração deve mexer com o nosso interior, pode ser com o auxílio de orações já conhecidas, leituras bíblicas, por exemplo, através do método da leitura orante. Como é este método? Ele consiste em dedicar-se profundamente a um texto bíblico, lendo-o várias vezes para familiarizar-se com a Palavra de Deus, tentando descobrir o que o texto tem a nos dizer; depois, meditando o que lemos para captar o que Deus quer falar conosco, em seguida rezar o que captamos, falando nós mesmos com Deus, a partir do que captamos – poucas palavras, mas palavras de compromisso transformador de nós mesmos, palavras ditas de coração aberto não apenas para o Pai, mas para com todos os seus filhos e filhas; rezar como uma criança, sem maldade, sem rancor, perdoando-se e perdoando a todos e todas, numa verdadeira atitude de paz e leveza do nosso ser. E como terceiro passo contemplarmos Deus, o nosso Deus cheio de amor e misericórdia, desejoso de uma mudança interior em nossa vida, que, na verdade, não nos pertence, mas pertence a ele. “Somos propriedade de Deus, comprados com um alto preço” – o sangue do seu Filho, derramado na cruz. O contemplarmos Deus está na linha do “Como é bom estarmos aqui”, na presença luminosa do Deus da vida. A quarta etapa da leitura orante é a ação concreta. Como estamos em plena Campanha da Fraternidade devemos endereçar nossa ação na linha da saúde nossa e dos irmãos e irmãs (Cf. Mt 6, 5-14).
A terceira obra de misericórdia é o jejum. Se a oração se relaciona diretamente com Deus, a esmola, diretamente com nossos irmãos empobrecidos, o jejum se relaciona diretamente com nós mesmos, mas tem também sua dimensão comunitária. Como devemos jejuar? Jejuar é comer menos, mas é bom que sintamos fome para solidarizarmos com nossos irmãos que vivem com fome e são milhões. Jesus, quando jejuou, sentiu fome. “Ele jejuou durante quarenta dias e quarenta noites. Depois teve fome”(Mt 4,2). O jejum nos ensina “que não só de pão vive o homem”. Quando sentimos fome estamos em sintonia com milhões de irmãos nossos que não tem nada para comer. Nós temos. Para sentirmos fome não podemos apenas deixar de tomar um café da manhã ou comermos a metade do almoço. Isso não chega nem mesmo a ser regime. Cada um descubra como jejuar de verdade, lembrando que devemos nos abster das coisas prazerosas do mundo, mesmo das que são lícitas, pois nós somos maiores do que elas. Na linha do comer temos muita coisa que podemos evitar. Na linha dos vícios temos muitos vícios que nos prejudicam e devem ser evitados. A Quaresma é um tempo oportuno para deixar os vícios. Importante é que ninguém saiba que estamos jejuando. Portanto, os homens não vão deixar de fazer a barba, nem as mulheres deixar de pentear os cabelos e de usar perfume. Só o Pai do céu deve saber o que estamos fazendo (Cf. Mt 6, 16-18). A última palavra sobre o jejum, que é capaz de nos fortalecer na fé e transformar nossa vida, é a mais forte, ou seja, o que economizarmos nos gastos normais seja transformado em alimento para os pobres. Terminamos, citando um livro lido pelos primeiros cristãos, chamado “Pastor de Hermas”, que explica como se deve jejuar e mostra a ligação entre o jejum e a caridade: “Eis como deverás praticar o jejum: durante o dia de jejum tu comerás somente pão e água; depois calcularás quanto terias gasto para o teu alimento naquele dia e tu oferecerás esse dinheiro a uma viúva, a um órfão ou a um pobre; assim tu te privarás de alguma coisa para que o teu sacrifício seja útil para alguém para poder alimentar-se. Ele rezará ao Senhor por ti. Se tu jejuares desse modo, o teu sacrifício será agradável a Deus”.
Dom Emanuel Messias de Oliveira
Bispo Diocesano de Caratinga
Disponível em: www.capelasaojose.net
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